Um ano após a tragédia acontecida na Boate Kiss e que assolou toda a comunidade gaúcha e brasileira, vamos reproduzir, por sugestão do diretor Jorge Nascimento, colona de Flávio Tavares – O pranto e o Crime, publicada no jornal ZH, de 26 de janeiro.
O pranto e o crime
Por que cortejar a impunidade, como se tudo fosse permitido ao crime?
Flávio Tavares*
A tragédia de Santa Maria foi tão ampla e profunda, tão insólita e absurda, que ainda não terminou. Um ano depois, tudo nela se multiplica, como se o horror fosse algo corriqueiro a imitar, não uma carnificina a punir. Naquele domingo de 2013, primeiro foi o espanto: mais de 200 corpos inertes, um ao lado do outro, num quadro que nem sequer a ficção sádica de um filme de terror ousaria inventar e que, no entanto, era verdade. Passado o espanto, veio a dor e veio o pranto. Choramos todos! Com as lágrimas nos solidarizamos com as vítimas, mostrando que naquela brutalidade não havia dor alheia, pois a dor estava também dentro de nós.
A presidente Dilma interrompeu sua visita ao Chile e voou diretamente a Santa Maria para certificar-se da tragédia. O mundo inteiro espantou-se! Mas, e daí?
Um ano depois, a dor se multiplica. Agora, com amor e respeito choramos pelos 242 mortos. Mas choramos, também, de raiva e impotência: não há responsáveis pelo crime. Ninguém assume sequer uma nesga de participação em nada, como se os únicos envolvidos na tragédia fossem as próprias vítimas. Todos se dizem alheios a tudo. Dos donos da boate (que armaram a ratoeira sem saídas) aos fogueteiros da banda, do prefeito de Santa Maria aos fiscais e bombeiros (que legalizaram o absurdo), ninguém assume sua parte no desastre que virou crime.
Essa mesquinhez absurda é degradante. Por que nossas instituições são insensíveis ao delito? Onde está a responsabilidade empresarial? Por que cortejar a impunidade, como se tudo fosse permitido ao crime?
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Nesta tragédia, tudo é espantoso. Já lembrei aqui que nem na Guerra dos Farrapos nem na Revolução de 1893 (em que cada lado saía para matar e festejava a matança), houve 242 mortos de uma só vez. Espanta, também, o desdém a que foi relegada a minuciosa investigação dos delegados de polícia Marcelo Arigony e Sandro Meinerz. Milhares de páginas com centenas de laudos periciais, testemunhos e interrogatórios foram tratadas pelo Ministério Público como se retratassem uma rixa entre vizinhos. Terá sido a partir daí que se abriu caminho à impunidade?
Será que as formalidades processuais pesaram mais do que a realidade, como se a lei não devesse interpretar a vida e não existisse para coibir a multiplicação da maldade? Terá sido esta a via pela qual se guiou o poder judicial, quando optou pela situação atual, em que os responsáveis diretos e indiretos desfrutam de plena liberdade?
Livres, os implicados na tragédia comportam-se como se fossem vítimas da ânsia de justiça. Sem qualquer gesto de arrependimento ou humildade, tentam eximir-se pela arrogância, transmitindo às cinzas a responsabilidade de tudo.
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Santa Maria transformou o luto em luta e resiste. Fora disto, porém, o crime impune serviu de guia à corrupção: na prefeitura de Porto Alegre passaram a “vender” licenças de funcionamento a casas noturnas, com base na experiência das fraudes de Santa Maria. Foi a única consequência direta da tragédia…
Em 2013, no dia seguinte ao incêndio, escrevi neste jornal:
“Consumada a tragédia, além do pranto e da solidariedade, o caminho árduo, agora, é chegar aos assassinos diretos e indiretos (…) pois os culpados transformam-se em autores de um homicídio coletivo. (…) A tragédia exige pensar a fundo e indagar sobre o hedonismo da sociedade de consumo, que transforma tudo em mercadoria de venda fácil. Até a vida de duas centenas de jovens que buscavam divertir-se. Esta tragédia não é apenas dramática e brutal, é revoltante!”
Hoje, um ano depois, indago: quando veremos a justiça substituir a revolta?
* Flávio Tavares – Formado em Direito, professor da Universidade de Brasília, Flávio Freitas Hailliot Tavares (RS, 1934) dedicou-se ao jornalismo. Colunista político nos anos 1960 da Última Hora do Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Belo Horizonte e Porto Alegre, foi preso e banido do Brasil pela ditadura em 1969. Exilado no México, foi redator do Excelsior, depois correspondente internacional de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires, logo em Lisboa. À volta do exílio, foi editorialista político do Estadão e correspondente da Folha de S.Paulo na Argentina. Hoje, é articulista dominical da Zero Hora, de Porto Alegre. Memórias do esquecimento recebeu o Prêmio Jabuti em 2000 e O dia em que Getúlio matou Allende recebeu o Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte em 2004 e o Jabuti em 2005.